quarta-feira, agosto 29, 2007

Joaquim - Capítulo IX

Tal como um prematuro, sete meses depois nasce mais um capítulo da saga que faz do Manuel Luís Goucha parecer um tipo viril, tal é a sua amplitude de conteúdos e variedade de estilos literários. Não se preocupem, as capacidades dos autores estão exactamente como estavam 7 meses atrás: sofríveis. Mas a história, essa está melhor do que nunca.



Sentia-me pesado, mais pesado do que na época em que vivia à conta daquela gata persa no Restelo. Isso sim, era vida: seis refeições por dia, sexo à discrição e passeios ao fim da tarde até ao Aquaparque. Infelizmente, um camião-betoneira não pensou da mesma forma e foram precisas três horas para raspar a Mimi dos pneus...mas, divago e essa merda não me tira o peso do estômago.

O Mitra e o velhadas estão para ali às turras, aquela trampa mais parece um espectáculo do Luís de Matos, com tanto truque e macacada. O pior é que não me lembro do que me aconteceu depois do velho me ter fechado na sala com ele. Violado não fui, que ainda me lembro do estado em que ficou o cu do Palhetas, quando foi apanhado num beco, por dois taradões lá para os lados de Miraflores, aquilo parecia a entrada de um depósito de gasosa do carro. Divago novamente, dá-me para isso cada vez que tenho o estômago cheio. Mas, cheio de quê? Não como nada de jeito há uns tempos e só me lembro do velho se aproximar de mim com um bafo que cheirava a alfaces podres antes de tudo ficar preto.

Olha, agora estão os dois palermas a olhar para uma carta no tecto. Fodasse e eu sou o quê, empalhado? Espera aí que já aprendem. Saltei o mais rápido que o meu cu pesado me permitia e lancei-me de garra feita, qual Vítor Baía dos tempos áureos, aos tomates do Mitra, já que o Gonçalves me metia um bocado de medo. Curiosamente, o banana não reagiu com a ternura habitual, que normalmente se traduzia numa biqueirada no meu focinho, o que me alertou para o facto de alguma coisa estar errada.

De repente, o Mitra agarra na ponta e mola que normalmente usava para limpar os ouvidos e ocasionalmente assaltar sexagenárias na zona do Areeiro e só o oiço dizer:

- Esta merda não fica assim. Tira-me lá o pó de dentro do cabrão do gato, que eu faço-te essa merda na mesma, só pela Catarina. Mas digo-te, se me estás a contar uma história eu...eu.... (era tão típico do Mitra começar uma ameaça sem saber como completá-la) eu venho cá e corto-te os cabos da TV Cabo e sabes bem o tempo que eles demoram até voltarem a pôr isso a funcionar outra vez.

Gonçalves ria-se com ar sinistro, típico também de ex-polícia com aspirações cabalísticas:

- Realmente, mais estúpidas do que tu, só mesmo as tuas ameaças. Eu já tenho TV em sistema wireless, o plano de reforma da polícia tem dessas benesses. Mas, deixemo-nos de brincadeiras, o gato vai como está, porque o meu contacto precisa dessa tua encomenda para fazer uma pequena....operação. Por isso, senta-te aí enquanto eu faço um telefonema, para confirmar os detalhes quando chegares ao Ludoviquistão.

Não pondo em causa a estupidez do Mitra e o facto de eu até gostar de viajar, apesar da maior distância a que alguma vez estive de Lisboa foi quando fui à Costa da Caparica com um dos meus antigos donos, que me levou a ver o mar. Gostei muito, apesar de ter tido alguma dificuldade em sair do saco e a vencer a ondulação para voltar à praia...merda para as divagações, lá estou eu de novo. O facto era, que eu tinha cinco pacotes de leitinho em pó no estomago e um anormal que pensava que o velho lhe ia trazer uma gaja do mundo dos mortos só para o consolar. Estou bem fodido estou, vou é acabar nas notícias das nove, como o primeiro gato-traficante do mundo.

O Mitra parecia estar meio zombie, mas isso talvez fosse do cheiro a nata azeda que vinha dos sofás do Gonçalves. Quanto a esse, fazia o que todos os velhos fazem quando usam o telemóvel, gritava que nem um desalmado e queixava-se da qualidade da linha.

- HÃ?? VAIS O QUÊ? FALA MAIS ALTO?
- ....
- VAI LÁ FORA, AÍ NÃO TENS...TÁS A OUVIR? TOU? TOU? NÃO DEVES TER REDE CARALHO!!!
- OLHA, JÁ PERCEBI QUE...TOU? NÃO SE OUVE PÁ. OK, SIM...HÃ?? ESTÁ BEM, O QUÊ, UMA VARA DE MARMELEIRO? NÃO? AH, VELHO PANELEIRO É ISSO MEU PALHAÇO? NÃO ESTOU A OUVIR...AH, SIM SIM EU TENHO ALGO MELHOR QUE O DINHEIRO. FICA ENTÃO COMBINADO. UM ABRAÇO, CUMPRIMENTOS AOS TEUS.

Ao que parece, a tortura audiofónica tinha terminado. O Mitra levantou os olhos para o Gonçalves, que usando a antena do telemóvel, um modelo que devia ter sido dos primeiros comercializados em Portugal, limpava a orelha direita, enquanto coçava ostensivamente os testículos com a mão livre.

- Caros montes de merda, depois do que ouvi, vou ser benevolente convosco – a expressão de Gonçalves dizia-me que ele era tão benevolente como uma tábua é sensível – esqueçam o Ludoviquistão, esqueçam o avião, esqueçam o prazo de três dias.

- Epá, és um porreiro – avançou o Mitra – sempre soube que tinhas um bom fundo...

- Sim, tenho o da reforma da polícia, mas cala-te meu merdas que ainda não acabei. O meu contacto teve de sair do Ludoviquistão, depois de um acidente numa refinaria ter contaminado aquela cena toda. Acho que ainda deve estar a sofrer de efeitos secundários, porque está quase surdo, mas fugiu do país.

Por falar em acidentes, o estômago cheio estava a dar-me gases, o que me fazia lembrar um mecânico em cuja garagem já tinha vivido e que tinha sido a primeira pessoa que me provou, várias vezes ao dia, que a Humanidade por dentro está podre. Epá, lá estou eu a divagar e o Gonçalves não se cala.

- Por isso, tu e o teu gato, têm novos planos. Vão ter de ir a Manta Rota, buscar a chave, porque ele chega hoje ao Algarve, em trânsito para Zanzibar. Se até ao final do dia de hoje eu não tiver a chave meu palhaço, podes começar a tornar-te apreciador de Naturezas-mortas, já que vai ser só assim que vais ver a tua querida Catarina. Além disso, ele tem o antídoto para o veneno que deixei junto com a droga no teu gato. Está feito para só o matar ao fim de três dias, mas sabes como são estes produtos chineses, nunca fiando.

Droga, veneno, Manta Rota??? Não ouvia tanto sinónimo junto, desde aqueles concursos que o António Sala apresentava na televisão. Mas, não me agradou nada aquela parte em que eu morria nesta história do Gonçalves. E, pela cara do Mitra, um Ultra Levur devia dar jeito, já que parecia que estava a ponto de se ir borrar todo.

- Mas...mas – o Mitra estava a fazer tilt – Manta Rota? Eu nem sequer tenho um bronzeador decente e os meus calções estão me justos e....

- Não tenho tempo para esses queixumes e tu também não deverias ter, com o que está em jogo. – Gonçalves abriu uma gaveta e tirou de lá uma folha de papel, em que escreveu algumas coisas e duas notas de 50 Euros – Aqui tens as indicações que só deves abrir depois de chegares a Manta Rota e, como imbecis como tu andam sempre tesos, toma lá 100 Euros para a viagem. Não gastes tudo em bebida meu animal e pede recibos de tudo, que me dá jeito para o IRS. – E com isto, abriu a porta da fente.

O Mitras pegou-me ao colo e saiu sem dizer uma palavra, com as notas e o papel no bolso. Ainda ouvimos o Gonçalves a arrotar sonoramente, como que dando o sinal de partida para esta epopeia que estava agora a começar. Um dia para salvar o mundo, ou melhor, para me salvar a mim, o que vai dar ao mesmo. A cena da gaja morta, da chave e tudo mais são acessórios. Sim, fodasse porque essa história dos gatos terem porradas de vidas é um mito urbano. Tenho uma só e não me apetece perdê-la com pacotes de coca enfiados pelo cu acima...

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Joaquim - Capítulo VIII

Após um longo período de recuperação do autor, depois de mais uma tentativa de desintoxicação - sem resultados, diga-se - surge mais uma página da vida do mitra Alfredo e seu fiel servo Joaquim, uma história que começa a tomar proporções de uma novela da TVI. Este é mais um capítulo. Leia os anteriores se quer ser feliz.


O trinco desliza suave numa fechadura oleada imaculadamente e oiço a porta fechar. “Que raio de tipo!”. Não sei porque raio me senti inferiorizado e acorrentado como se o seu tom de voz áspero comandasse todos os meus movimentos. Mas mais preocupante era o olhar demoníaco insistente no pobre Joaquim. O que poderia fazer a um gato? Tudo. Lembrava-se agora que quando era mais novo, os gatos eram dóceis cobaias de estranhas formas de tortura, de novas formas de dor executadas com perícia e sadismo q.b. Uma vez lembrou-se de atar as patas traseiras e pendurou-o a um andaime de umas obras ditadas ao abandono próximo de casa. As patas da frente ficariam esticadas a um centímetro do chão. Lembra-se do tempo que perdeu para que esta medida fosse meticulosamente respeitada. Era imprescindível que o gato ficasse com uma falsa esperança de atingir o chão e que, ao agitar-se e mexer-se para isso, provocaria um alagamento do de sangue por todo o cérebro até à perda de consciência total. Alfredo conseguiu provar, aos dois anos de idade que os gatos não são mais que os outros animais, apenas têm uma vida.
Alfredo poderia estar aqui páginas consecutivas a descrever todas as suas habilidades de tortura mas neste instante só queria arranjar uma forma de salvar Joaquim das garras do Gonçalves.
Olhou para a porta fechada e estranhamente nem um som escorria por entre as frinchas. Aproximou-se e encostou os ouvidos à porta na esperança de ouvir algum ruído que pudesse dar-lhe alguma pista do que acontecia do outro lado. Nada. Silêncio absoluto. Decidiu então afastar-se da porta e circular um pouco pela casa. Aproximou-se da janela que dava para a rua e assistiu aos últimos movimentos policiais. Uma ambulância ligava as sereias e partia a toda a velocidade por uma cidade que começava a acordar lentamente. Outra mantinha-se preparada, de portas abertas, à espera de mais um corpo. Os mirones e curiosos, mantidos à distância por uma fita branca de riscas vermelhas, debatiam-se em justificações e curiosidades, sobre o aumento da criminalidade na zona, das sarjetas entupidas e da falta de policionamento na área. Um polícia procurava indícios no exterior, segurava uma lanterna e apontava-a para o chão calcorreando a calçada. Outro olhava fixamente para a árvore que eu escalara horas antes. Aproximou-se com uma lanterna e rondou toda a copa da árvore em busca de algo. De repente, desabotoou o fecho e alagou-se todo em urina. Eu respirei bem fundo mas logo deu um salto de sobressalto. Das escadas veio um enorme estrondo. Aproximei-me do óculo da porta e espreitei lá para fora:
-Foda-se carlos, Foda-se. – Gritava um paramédico para um dos colegas – Olha-me para esta merda. Foda-se carlos.
-Tem tento na língua – respondeu-lhe o outro.
-Tenho tento o caralho, foda-se Carlos. Olha-me para esta merda, deixar cair a morta pelas escadas abaixo!
Naquele instante Catarina era a mais bela morta que alguma vez vira por um óculo de uma porta. Ali despojada de tudo, apenas coberta com um lençol branco e com um braço virado do avesso, já com mazelas a descoberto e escoriações à vista de todos.
Voltaram a colocar o corpo em cima da maca e foram a barafustar o resto do caminho. Ouvi a porta de cima a ser fechada e assisto à conversa dos últimos agentes que ainda restavam no prédio. Vinham a descer vagarosamente discutindo os resultados do Campeonato Mundial de apneia de piscina curta. Foram também os últimos passos que ouvi nas escadas.
Voltei a dar atenção à casa do Gonçalves. Uma lareira que dava sinais de não fazer muita companhia. Por cima desta estavam penduradas duas cabeças de animais selvagens provenientes de alguma caçada: um tipo da Damaia e, por incrível que pareça, o Cabeças. Um tipo que eu conhecera no Bairro do Fim do Mundo e que se safara sempre da choldra. Pelos vistos não conseguira fugir do Gonçalves que assim o preservava como uma espécie de troféu. Lembro-me que o Cabeças tinha muito orgulho nos seus olhos, dizia que convencia as putas todas a fazer descontos, só pelos lindos olhos dele. Hoje tinha os olhos esbugalhados, de surpresa de ali estar e duvido que alguém lhe fizesse um preço-amigo. Não posso deixar de achar irónico como um tipo chamado “Cabeças” acabou por ver a sua cabeça pregada numa parede.
Do outro lado da sala encontrei uma enorme estante repleta de livros. Percorri alguns dos títulos e curiosamente quase todos versavam sobre o mesmo assunto. Antiguidades, Relíquias, Tesouros Secretos da Humanidade, Gizé e o Faraó, Anita vai ao Templo de Tutankhamon entre outras preciosidades.
No centro da sala, a mesa e, meu Deus, a minha arma. Rapidamente segurei no ferro e procurei os sacos de droga que deveriam estar repousados em cima da mesa. Nesse instante a porta abre-se e vejo o Gonçalves com o gato nas mãos, fazendo-lhe festas. O gato ronronava e eu apontei-lhe a arma:
-Meu cabrão do caralho, agora não te safas. Pensas que eu sou o quê, velho do caralho? Podes espreitar lá para fora porque vais perceber que os teus amiguinhos já não estão por cá.
O Gonçalves mantinha-se sereno a fazer festas ao Joaquim.
-Não me ouves, caralho? O que é que fizeste ao gato? Larga o gato, foda-se. – Eu ía aumentando o tom de voz e o olhar do Gonçalves mantinha-se tranquilo. – Não me ouves, velho do caralho? Põe já o gato no chão antes que...
-Antes que.... – interrompeu-me com um olhar cândido e de ternura na voz.
-Foda-se, mas é preciso tirar um curso para perceber que eu tenho uma arma apontada? Quem manda nesta merda sou eu. Poe o gato no chão e....aliás...onde é que está a droga que eu tinha metido na mesa?
-Ah, finalmente uma pergunta interessante. Mas se queres ouvir a resposta aconselho-te já a baixar a arma, senão as coisas azedam.
-Azedam mas é para os teus lados, ó ancião. Já sinto o cheiro das ferdomonas...
-Feromonas, pá...
-Essas também...de tão borrado de medo que estás. Ó cientista, põe a merda do gato no chão, dá-me a droga de volta e saímos daqui de fininho como se nada tivesse acontecido, amigos como dantes. Pode ser ou preciso que a arma fale por mim?
Gonçalves colocou o gato no chão com vagar, deu dois passos na minha direcção e encostou a arma ao seu peito. Confesso que fiquei nervoso com o gesto:
-Estás armado em menino, é? Tu daqui não sais, palhaço. E vais fazer aquilo que eu mando, ouviste, cabrão? AQUILO QUE EU MANDO!
Ouviram-se disparos quando puxei três vezes o ferro. Fechei os olhos instintivamente para abafar o impacto visual. Quando os abri, o cabrão do velho mantinha-se vivo à minha frente, ria-se da minha cara incrédula e tira do bolso o carregador da arma.
-Não sei como é que consegues matar alguém sem balas. – E antes de obter uma resposta à altura deu-me um pontapé na minha única zona erógena. Encolhi-me e fiquei prostrado a ganir durante algum tempo enquanto ele explicava o seu plano.
-Agora que estamos mais calmos, já podemos falar como duas pessoas civilizadas. – Voltou a pegar no Joaquim e reparo que o gato está demasiado dócil.
-O que é que fizeste ao gato, velho? – Perguntei-lhe eu entre gemidos.
-Estás a falar deste gatinho querido e fofo? Pois o teu gato é uma peça fundamental neste meu esquema que eu estou a montar. Mas porque eu não confio em gatos pretos, preciso que o dono dê uma ajuda.
-Foda-se...
-Calma, é simples. Neste momento, o teu doce, terno e tenro gato ainda está sob o efeito de uma anestesia.
-Anestesia?
-Por vezes é necessário controlar os instintos animais. Neste caso foi necessário introduzir 5 pacotes de droga no estômago do bicho e 5 comprimidos de um antilaxante.
-Não estou a perceber nada, foda-se.
-Calma. As melhores coisas chegam sempre àqueles que esperam. Gostas de viajar?
-Não percebi a pergunta.
-Então, nesse caso aqui vai a resposta. Estou a oferecer uma viagem para duas pessoas, quer dizer, no teu caso, para uma pessoa e um gato até ao Ludoviquistão.
-Continuo sem perceber.
-Tu e o teu bicharoco vão fazer uma entrega a um contacto meu do Ludoviquistão. Em troca receberás uma chave enferrujada. Não a subestimes, pode estar carcomida pela ferrugem mas eis nela habitam poderes para os quais não estás preparado, pois trata-se da Grande Chave que revela todos os segredos do Templo de Zacarias da Babilónia...
-Vais trocar droga por uma chave que abre o centro comercial da Amadora?
-Ignorância Suprema, és apenas um servo e um peão ao serviço de uma tarefa maior.
-Maior que o centro comercial Babilónia? Eh pá...
-Essa chave terá de estar nas minhas mãos antes do sol atingir o máximo deslocamento a sul do planeta, antes do Solstício de Verão. Por outras palavras, tens apenas 3 dias para me trazer a chave.
-Senão, o quê, ó Velhadas das Chaves do Areeiro? Fazes umas mezinhas com cogumelos selvagens para que os meus tomates caiam?
O Gonçalves sorriu entre dentes e largou a bomba atómica:
-Se me trouxeres a Grande Chave, prometo-te que a Catarina volta a ter vida.
-Foda-se, ó velho do caralho. Mas estás-me a achar com cara de quê? Foda-se. Tenho a quarta-classe tirada, carta profissional de pesados e nome na praça. Achas que acredito nessa merda? Foda-se, a Catarina está morta, pulha de um cabrão, morta por um cabrão igual a ti. Mas mais novo do que tu.
-Cépticos como tu necessitam de ver. Vamos fazer o seguinte, então. – E aproxima a sua mão da minha cara. Encolhi-me com o movimento brusco mas ele foi mais rápido, mostra-me uma moeda e faz a pergunta fundamental– O que é isto?
-Isso, foda-se, é uma moeda de dois euros, ó caralho.
-E o que estava a fazer uma moeda de dois euros atrás da tua orelha?
-Foda-se, eu não tinha nenhuma moeda atrás da orelha.
-Então, como é que ela apareceu na minha mão?
A questão deixou-me perplexo, angustiado por nunca ter percebido como é que eu andava com uma moeda de dois euros atrás da orelha, tal como uma carraça, sem o saber. Estava eu ainda a procurar respostas às minhas dúvidas quando vejo o velho à minha frente com um baralho de cartas nas mãos. E voltou a propor algo:
-Escolhe uma carta.
-Qualquer uma?
-Sim, olha para ela e depois volta a colocá-la aqui no meio das outras.
Tirei a carta, olhei para ela e era um terno de paus. Mas quando voltei a colocar a carta, retirei-lhe o baralho das mãos.
-Pensas, o quê, ó Chaves. Sou eu a baralhar. – E baralhei aquilo. Foi então que ele se virou de costas e disse: - Baralha que eu nem quero ver isso – Eu baralhei, baralhei e voltei a baralhar – Então? Isso demora muito? – perguntou - Já está. – E dei-lhe novamente o baralho para as mãos.
O Gonçalves ficou a olhar demoradamente para o baralho e retirou uma carta do meio. Apontou-me a Rainha de Copas.
-Era esta?
-Ah Ah Ah. Foda-se velho do caralho. Não era.
-Espera. Então era esta. – E mostra-me um Valete de espadas.
-Ah Ah Ah, ó Chaves, estás a cair no ridículo, foda-se.
-Espera. Não me digas que é aquela? – E aponta para o tecto da sala. Fiquei branco e depois percorri todos as outras cores até ficar sem pingo de sangue. Ali, bem colada como um iman, a carta que tinha escolhido: o terno de paus.
-Da mesma forma que aquela carta ali apareceu, também posso fazer aparecer a vida à Catarina. Só preciso da Grande Chave.
-E porque não vais lá tu buscá-la, caralho?
-Tenho medo de andar de avião.
-Quantos dias tenho?
-Tal como o número da carta que escolheste: três.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Joaquim - Capítulo VII

Depois de um interregno, muito pouco superior a um intervalo comercial na TVI, está de volta a saga que prendeu as atenções de pelo menos três cegos na Linha Azul do Metro, que confundiram as imperfeições da tinta do manuscrito original, com o traçado da primeira revista porno nacional em braille.

O velho, que até agora me parecera um bocado taralhouco, talvez por não estar habituado a ter uma arma como a do Mitra apontada aos cornos por hora do “Bom Dia Portugal” ou lá que programa fatelo era aquele que a televisão debitava, de repente ficou com uma expressão fria e calma.
A polícia berrava lá fora e ele virou-se para o Mitra, que me segurava com força suficiente para que eu não chegasse ao leite em pó, do qual confesso gostar agora mais do que os biscoitos que ele me tentava impingir. “Se queres ver o dia de amanhã com alguns dentes teus no sítio e a possibilidade de teres filhos ainda no horizonte, vai para a casa de banho, fecha-te lá com o cabrão do gato e caladinhos. Ouviste?”. O Mitra baixou a arma, e arrastou-me para aquele cubículo que cheirava a mijo a mais de 10 metros de distância.
Ouvimos o velho a abrir a porta eperguntar: “O que é querem, matar saudades? Apareçam na festa de reforma então!” O bófia lá fora deve ter hesitado, porque demorou a responder: “Sub-Chefe Gonçalves? Não sabia que morava aqui...”, ao que o velho respondeu:
- Pois e eu gostava que continuasses a não saber, mas como me estás aqui a moer o juízo a esta hora, infelizmente isso já não é possível. Fodasse um gajo reforma-se e continua a ter de levar com o pessoal da esquadra a bater à porta...
O Mitra, passando-me a mão pelo lombo, sentado na sanita às escuras ia murmurando “Gonçalves, Gonçalves....este nome não me é estranho, ainda por cima tendo sido o velho da bófia devo conhecê-lo de algum lado”.
- Desculpe sub-chefe, mas o Tirapicos, o gajo da Brigada Anti-Droga alertou-nos para passarmos aqui cedo, porque parece que havia um cenário estranho na casa da gaja que ele andava a comer e ele queria vir pregar-lhe um susto antes de irmos para uma operação de apreensão qualquer – o polícia falava com jeitinho, o que provava que o tal Gonçalves devia puxar uns cordelinhos.
- E o que é que eu tenho a ver com isso, não me dizes? – o Gonçalves era um tipo com voz imponente, apesar do ar um bocado amolgado.
- É que o Tirapicos está estendido lá em cima no apartamento da gaja, que tem dois piercings de chumbo cravados nas costas e dali já não sai. - sempre achei piada aos polícias terem sempre calão para falar de gente que foi baleada - O gajo não diz coisa com coisa, fala-nos em limpa janelas, guarda nocturnos e gatos pretos, levou com uma cadeira nas ventas e, ao que parece, a arma usada é dele.
- Pois, mas gatos eu não tenho, e paneleiros a limparem-me a janela muito menos...Por isso tens dez segundos para me dizer o que queres de mim – por incrível que pareça o Gonçalves não nos tinha lixado até agora.
- Eeehhrr...bem se não viu nada de estranho, peço desculpa pelo incómodo, vamos levar o Tirapicos ao hospital e quanto à gaja, bem se calhar vamos ter que chamar o médico legista. Depois ainda temos de contactar a central, para saber quem comanda a história da apreensão – Cada vez que ouvia esta palavra, os olhos do Mitra ainda brilhavam mais que os meus no escuro.
- Vá...põe-te a andar então – rosnou o Gonçalves – Só uma coisa, a Magda ainda trabalha lá nos telefones da esquadra? Com certeza que sabes quem é, um par de mamas daqueles fica na memória de qualquer gajo que não seja cego.
- Sei quem é....casámos há cerca de cinco meses. – o bófia não parecia muito satisfeito com o elogio do sub-chefe.
- Ah...hum...cumprimentos – e depois ouvimos a porta a bater com força.
- Já podes sair badameco e espero bem que tenhas guardado a pistoleca no bolso ou enfio-ta pelo cu acima. – o Gonçalves era agora um gajo confiante.
O Mitra colocou-me no chão, sem sequer me dar um bocadinho de leite em pó, o sacana estava a ficar um agarrado de primeira. A casa do velho era escura e cheirava a mofo. A sala que ele nos apontou tinha um sofá do tempo da 1ª Guerra Mundial e parecia que não era limpa sensivelmente desde essa altura. O Gonçalves apontou o sofá ao Mitra, enquanto sacava de um cigarro e eu me entretia a cheirar umas plantas de plástico cheias de pó, mas que não eram do meu leitinho favorito.
- Portanto, tenho aqui um gajo e um gato que foderam o Tirapicos. O meu palpite é que ele te apanhou a comer a Dona Catarina e a coisa deu para o torto...
- Não foi...- ia a começar o Mitra.
- Caladinho! – o Gonçalves não falava alto, mas tinha voz de quem tinha tomates – Aqui quem fala sou eu, isto é se não queres que eu de repente me lembre de chamar esta malta que anda aqui nas escadas. – O Mitra se tivesse cauda, como eu, acabava de a pôr entre as pernas. – O facto de me entrares aqui com uma arma em punho, um gato com bigodes cheio de droga e roupa com algo que aposto que não é farinha, também me faz pensar que não és nenhum anjinho. Por isso, vais pôr com muita calma a arma na mesa, a droga que tenhas ao lado e depois vamos conversar.
O Mitra olhou para mim, como se fosse eu a ter que inventar alguma coisa para o safar. Acho que ele ainda não tinha percebido bem, que se eu tivesse super poderes não andava com ele de um lado para o outro. Pousou a arma na mesa, tirou relutantemente cinco pacotes de droga do casaco, tentando ocultar os três com que ficou no bolso e voltou o olhar para o sub-chefe Gonçalves.
- Muito bem menino – respondeu-lhe este – assim é que eu gosto. Posso estar reformado há quase um ano, mas não sou parvo por isso nada de brincadeiras. Mas, se queres sair daqui inteiro e ainda mais rico do que entraste, vais ter que me fazer um favor.
- Epá – começou logo o Alfredo – se estás à espera de cenas de panascas e tal, podes chamar já a bófia. Não agasalhei o croquete na prisão, também não vou levar na pá de um velho rebarbado.
- Com esse aspecto, nem que eu fosse como o Castelo Branco te queria para alguma coisa. Está descansado, eu quero é que me deixes 10 minutos a sós com o teu gato - o sorriso porco do sub-chefe Gonçalves não indicava nada de bom.
- Ok, mas vê lá o cenário, porque o Joaquim já me safou umas vezes - o cabrão do Mitra sorria, enquanto me dava assim de borla.
- Já to devolvo – ia jurar que o Gonçalves estava a despir-me o pêlo com os olhos – só quero fazer uma coisa. O Mitra levantou-se, foi até à cozinha e este velho tarado não tirava os olhos de mim, enquanto ia encostar a porta da sala...

segunda-feira, setembro 11, 2006

Joaquim - Capitulo VI

Mais um capítulo nesta saga que já se tornou uma das melhores histórias escritas na internet, a meias, entre dois tipos que acreditam que a cientologia não devia ser uma religião nem ciência mas sim um clube de sueca. Já vai no sexto capítulo. O que faz pensar que você anda a perder muito na vida, não é?


Catarina coloca o Joaquim no chão, vira-se de costas e ouço a sua voz nu tom bastante irritadiço, como se falasse para dentro:
-Que merda de dia. Eu devia... – barafustava ela enquanto eu tentava vestir as calças à pressa. Tudo porque tentava esconder a enorme protuberância que se tornava cada vez mais evidente e proeminente ao nível da zona do baixo ventre.
-Devias o quê? – interpelava eu para ganhar uns segundos de distração, o suficiente para desviar o assunto e o olhar da Catarina do enorme inchaço que se tornava cada vez mais incómodo. Esta mulher deixava-me sempre louco de desejo, mesmo 4 anos depois sentia uma ligação e uma atracção física incontrolável.
Desesperado, para que as calças entrassem o mais rápido possível, atrapalhei-me e num gesto bizarro pisei uma das baínhas, ficando sem apoio sustentável e fui conhecer pessoalmente o chão de tacos da anfitriã. Bati violentamente com a cabeça no chão. O meu cérebro esquecera-se de passar a informação às mãos e pernas que se degladiavam entre si esquecendo-se de uma função básica na queda, conhecida como "amparar". Nesse instante, Catarina lança-se na minha direcção e num voo diabolicamente olímpico consegue amortecer a minha queda segurando-me um dos braços. Não o devia ter feito. Preferia ter marrado mesmo de frente ao chão do que assistir pessoalmente ao momento incómodo que se seguiu. Explica-se. No preciso momento em que ela segurou-me, senti a sua suave mão em contacto com a minha pele. Todo o meu corpo estremeceu numa questão de milésimos de segundo, lembrando-se do seu último e suave toque feminino quatro anos antes, exactamente pela mesma mão. Num silvo rápido e intenso, descontrolei-me e ejaculei abundantemente à medida que caía. Larguei um enorme grito, não de pânico mas de prazer e acabei estatelado no chão a ganir como um cão. Catarina aproximou-se:
-Meu Deus, estás bem?
Eu gemi mais duas vezes, completamente extasiado. Ela virou-me de costas e eu prontamente assumi uma posição fetal agarrando tudo aquilo que me fazia homem. Foram 4 anos contidos que agora desapareciam em poucos segundos garantindo-me um prazer inimaginável. Catarina, alheia a este facto, olha para a minha zona pélvica e dá um salto para trás, assustada. Leva as mãos à cara e grita desesperada ao ver que estava todo molhado:
-Meu Deus...que horror....esborrachaste os tomates!!!!!
-Mas...não...
-Temos de ir a um hospital...meu Deus.... – abriu a sua mala à procura do telemóvel – vou chamar o 112.
-Não...não... – um misto de prazer com dor provocavam-me um aperto nas cordas vocais impedindo um volume mais alto no tom de voz.
-Bolas, tenho de ir para a varanda que aqui não tenho rede.. – e começa a cheirar----snif...mas que cheiro é este? Parece que cheira a...– Passa por mim e desta vez demora mais tempo a olhar para este triste espectáculo enquanto eu permaneço com um sorriso estúpido na cara:
-Alfredo...tenho a sensação de que rebentaste mesmo os tintins... é que está aqui um cheiro a....
-Sim...eu estou bem...não foi nada. Isto acontece-me sempre que marro de frente com o chão da tua casa.
Catarina ainda fica quieta e em silêncio a tentar processar certas informações. Segundos depois, denoto que já descobriu o que se passa. Desliga a chamada e volta a guardar o telemóvel na mala:
-Bem, se calhar é melhor ires tomar um banho...
-Sim, é melhor – acedi eu enquanto me levantava de novo sem calças. Começo a andar em direcção à casa de banho quando me lembro do Joaquim:
-Onde é que raio está o caralho do gato? – Olhei para a varanda e vejo o meu casaco ganhar vida própria. Mexe-se no chão. Um vulto movimentava-se dentro do bolso do meu casaco. Suspirei de alívio. “Ah, está a tomar conta do material!”. Lembrava-me agora que ainda possuía uma arma e droga que tinha de ser despachada no final desse dia. Droga, uma palavra que me reavivara a história do bófia quando falara de uma suposta apreensão esta manhã. Poderia ser um achado e uma óptima fonte de rendimento se eu o tivesse seguido, quem sabe poderia descobrir o local da apreensão e conseguir sacar a droga primeiro. Ora aí está uma boa perspectiva de negócio. E sabendo que quando há uma apreensão significa de que existe quantidade....mas o que é que estás a pensar Alfredo? O homem já se foi. Esquece. Neste momento só precisas de um bom banho, convencer a Catarina a dar-te um tecto enquanto as coisas se acalmam e tu despachas o material. Tranquilo. Nada mais simples. Depois logo se vê.
Entrei na pequena casa de banho. Foi brindado com uma mistura de cheiros, aromas e sensações. Tudo com delicadeza e pureza femininas. Entra-se numa casa de banho de gajo, ele pode ter lá todos os cremes paneleiros e os perfumes mais caros do planeta, que o cheiro da urina da sanita ganha vida e sobrepõe-se a todos os outros. Tudo isto me fez lembrar a minha mãezinha que, sempre que lavava a casa de banho, vociferava: “merda para o caralho dos homens!”. Não por inveja de o fazermos de pé mas sim porque salpicamos sempre tudo. Aquela casa de banho não tem nada disso. Por existir outra casa de banho mais pequena para as visitas, esta aqui permanecia pura e limpa de homens. Aqui reina o cheiro de cremes, do gel, do shampo, da loção, do perfume, do sabonete, até a humidade do cortinado que cobre a banheira tem outro cheiro. E está tudo tão limpo que se fosse realizado o teste do algodão, concerteza que seria o responsável pela conspurcação do ambiente.
Um canto daquela divisão chamou-me a atenção. Totalmente fora do contexto deste arranjo celestial, de brilho e limpeza, uma pilha enorme de revistas e jornais rasgados ocupa um enorme espaço. Tirei a revista de cima e comecei a folhear. De repente cai uma folha solta, propositadamente arrancada. Tento ver com mais atenção e vejo metade de um anúncio de publicidade. Era de uma urbanização, mostravam-se plantas e imagens de tranquilidade e espaço. Não fazia sentido nenhum ela ter separado esta folha das restantes. Estaria a pensar mudar de casa? Mas para Almeirim, o local indicado naquele reclame? Foi então que decidi virar a página. Do outro lado encontrei uma folha de horóscopos. Voltei a colocar a folha dentro da revista e decidi tirar outra da pilha. Aconteceu exactamente o mesmo. Desprendeu-se uma folha, de um lado metade de uma reportagem sobre barcos, do outro uma folha de horoscopos.
-Bolas...claro, como é que não pensei nisto antes? – Falei em voz alta. Tal como já avisara, é sempre bom acordar a voz silenciosa que ouvimos por dentro. Catarina era fascinada por tudo o que evocava misticismo, astrologia e essas coisas do além para as quais eu fico aquém.
Senti um aperto nos intestinos e sentei-me na sanita. Puxei de uma revista e comecei a ler os horoscopos. Em comum, havia marcas e círculos à volta de “Aquário”. Não é preciso ser muito inteligente para deduzir que tinha encontrado o signo de Catarina. Decidi procurar o mais recente. Diz o dela:

“AQUÁRIO
Esta semana tudo tende a correr bem dada a sua inspiração para enfrentar os problemas e mal entendidos que podem surgir. No plano afectivo, a semana é promissora nos amores. Uma relação do passado surgirá na sua vida. Na saúde, influências negativas. Evite comportamentos que mais tarde podem ser fatais.”

Sorri com desdém a tanta coincidência. Decidi tirar tudo a limpo.
-Catarina? Catarina? – Gritei eu. Ela aproximou-se da porta da casa de banho.
-Não me venhas com a desculpa que precisas que te esfregue as costas.
-Não, nada disso. Olha...eu não sei como te perguntar isto...mas...
-Diz lá...
-Qual é o meu signo?
-És Sagitário.
-Bem, assim de repente. Com essa rapidez só posso assumir que tens a certeza.
-Acredita, eu sei bem qual é o teu signo. Os Sagitários são desastrados. Metem sempre o pé na argola e não sabem quando calar-se. Estão sempre à procura de novos horizontes, adoram aventuras e odeiam restrições na liberdade pessoal.
-Acho que sim....mas isso também pode ser qualquer pessoa.
-Mas porquê? Andas a ver as minhas revistas?
-Pois......que engraçado.
-Qual é a graça?
-Os nossos signos rimam. Aquário, Sagitário. Achas que é coincidência?
-Se calhar é o destino.
-Já cá faltava.
Nesse instante ouve-se a campainha da porta.
-Ó diacho.... Precisas de mais alguma coisa?
-Não.
-Então vou ver quem é... – foi a falar sozinha até à porta e eu decidi ler o meu próprio horoscópo para o tira-teimas. Percorri todos os signos à procura dele. Aqui está:

SAGITÁRIO
“Esta semana dará importantes passos na vida sentimental iniciando várias relações, uma nova e outra que é retomada. Os acontecimentos são marcados por uma lufada de ar fresco que torna a vida sentimental mais alegre. No plano económico, possibilidade de crise com redução de dividendos. Necessita de encontrar mais uma fonte de rendimentos.
Na saúde tenha especial atenção aos pés e na retenção de líquidos.”



Já não sorri. Ainda estava eu assustado com a coincidência quando começo a ouvir alguns gritos. Catarina aumenta o tom de voz para alguém. Levanto-me rapidamente, encosto a orelha à porta e tento ouvir alguma coisa. Nem precisava porque começo a ouvir vozes com maior intensidade. No início, as vozes misturam-se numa mescla imperceptível mas logo reconheço as vozes. O cabrão do bófia tinha voltado:
-Mas pensas que me enganas, ó badalhoca? – gritava o estafermo – Pensas que eu não percebo. Estive lá em baixo à espera durante meia-hora....
-Mas eu garanto que ele desceu.... pode ter saído pela porta das traseiras...
-Desde quando é que este prédio tem traseiras, porca de merda? – E de repente ouve-se um estalo. Catarina grita e eu não me contive. Borrei-me pelas pernas abaixo e os meus pés ficaram soterrados no almoço desse dia. Desconcertado por me encontrar naquela posição, tento vislumbrar uma saída enquanto a discussão na sala continua alto e a bom som:
-Vá, minha puta de merda, chama a bófia, vá. – ouvia estas palavras de forma entrecortada entre os salpicos da água. Nesse instante decidira que o melhor era lavar-me no bidé e tirar as partes maiores na banheira. Enquanto isso, Catarina continuava a ser alvo de um enxerto de porrada de um agente de autoridade – onde é que ele está, minha cabra? Ele ainda está aí, não é minha putéfia? Acabas um serviço e metes-te logo noutro, minha porca?
De repente, os gritos viram-se. No teatro violento daquela sala, ouço agora o bófia aos gritos. O enredo muda de figurino, as peças e os actores parecem agora assumir outros papéis. Catarina estava a dar luta, pensava eu. Ouvia encontrões aos móveis, jarros a partirem-se e no meio disto tudo distingui o “rosnar” de Joaquim. Vesti as calças, abri a porta devagar e tento agora ver o que se passa. Vejo a cara do bófia toda preta:
-Mas porque raio o bófia vem de barba postiça? – pensei eu. Mas logo percebo que a suposta “barba” é o incrível Joaquim agarrado com garras e dentes à cara do agente. O gato está todo maluco, encontra-se possuído por algo que eu desconheço. O bófia grita com dores lacinantes, o Joaquim não sai da cara dele, quase que a arranca com violência. Eu aproximo-me, pego numa cadeira e descarrego a energia cinética no lombo do bófia. Este cai estatelado no chão, totalmente inanimado ou morto, não sei. Catarina entretanto recompõe-se, vem ofegante, abraça-me durante uns segundos. Ficamos ali, agarrados um ao outro, num ambiente romântico até que me diz:
-Cheira a cócó.
-Hum...eh...é dele – apontei para o bófia que se encontrava deitado de barriga para cima.
-Achas que se borrou?
-Eh....É comum isto acontecer. Ouvi falar de um caso semelhante em Cinfães, no ano passado. Normalmente, as pessoas com personalidade mais violenta têm os intestinos mais cheios de gases e soltam-se com mais facilidade. Deve ter sido quando lhe dei com a cadeira nas costas, o impacto deve ter pressionado as vértebras e, vai daí, este cheiro.
-Achas que está morto?
-Pelo cheiro, sim, ah aha ahh – ri-me a bandeiras despregadas.
-A sério, Alfredo. Ele pode estar morto. Não podemos ter um polícia morto dentro de casa. E fizémos tanto barulho que alguém pode ter chamado a polícia.
-Ei, onde é que está o Joaquim? – Olhei em redor e fui encontrar novamente um pequeno vulto a movimentar-se debaixo do casaco – Joaquim? Anda cá. – O raio do gato parou. Lentamente começa a andar debaixo do meu casado e sai - Foda-se, Joaquim! Que merda é esta?
O gato vinha com o focinho branco e num ápice começou a correr de um lado para o outro. Fui buscar o meu casaco, levei a mão ao bolso e contabilizei apenas 8 sacos. A mão quando saiu veio totalmente branca.
-Alfredo? – Catarina levou as mãos à cara assustada – Diz-me que isso não é o que eu penso que é.
-Isto? Isto o quê?
-Isso é droga, não é?
-Droga? Que disparate! É um pó para o estômago, um antiácido – Entretanto o Joaquim andava em grande azafama. Corria, parava repentinamente, voltava a correr, parava novamente, miava ligeiro como se cantasse e, do nada, voltava a correr a grande velocidade – É claro que pode ser considerado uma droga, no sentido de "medicamento", mas droga no sentido de droga? Que coisa mais disparatada.
-Meu Deus, Alfredo. É mesmo droga – Catarina aproximou-se e retirara uma unha - E da boa.
-Bom, nesse caso é mesmo droga. Mas não te posso deixar cá uma grama gratuita. Já estou a ver que o caralho do gato está a estragar-me o negócio.
-Estragar? És tão mitra. Se não fosse ele, não estaria viva agora.
-Ena, para quem era superticiosa....nada mal para um gato preto que em cinco minutos já se cruzou várias vezes no teu caminho.
-Por acaso reparaste quantas vezes ele passou? Era número par ou ímpar?
-Catarina, relaxa. Agora temos de pensar numa forma de nos livrarmos deste tipo.
-E como é que achas que....
Catarina não conseguira pronunciar o resto da frase. Foram as suas últimas palavras. Decerto que ela pensara nas suas últimas e estão não estariam na shortlist. Perante a nossa distracção, o polícia recuperara minimamente os sentidos e embora deitado, e à traição, conseguira sacar da arma. Disparou dois tiros mortais. Catarina, com o impulso das balas cravadas nas suas costas, deixa-se cair. O tempo parou quando vejo o corpo daquela mulher desfalecer. Oiço de novo outro disparo e o corpo de Catarina sucumbe ao impacto. Tenho o corpo daquela mulher nos meus braços e quando olho para o bófia, percebo que ele recupera as forças para mais um disparo. Levanta o cano e vem na minha direcção. Num dos seus repentes, Joaquim passa à frente do homem e um pequeno toque no seu braço faz desviar bala que zumbe nos meus ouvidos. Quando volto a abrir os olhos, tomo consciência que o desvio de Joaquim salvou-me a vida. Lá fora, e para compor o ramalhete, oiço a aproximação das sirenes da polícia. Vários carros foram chamados ao local e nem preciso pensar muito que estou no sítio errado, à hora errada. Não conseguirei explicar nada disto, tenho cadastro e o polícia mantém-se vivo para desmentir qualquer história que possa dar como verdadeira. Por sorte, o polícia já não tem forças para levantar de novo a arma. Agarro no casaco, saco um pacotinho de pó e começo a chamar pelo bichano. Atraído pelo isco, Joaquim aproxima-se de mansinho, começa a ronronar e eu aproveito para o meter dentro do bolso: “Já me safaste muitas vezes, Joaquim”.
Quando estou a sair do apartamento oiço passos apressados subirem as escadas do prédio. Comecei a pensar nas alternativas de escape: não posso sair pelas escadas, não posso ficar em casa, não posso sair por onde entrei. Olho em frente e toco à campainha do vizinho. Ninguém abre a porta. Os passos dos polícias aumentam de intensidade, estão cada vez mais próximos. Volto a tocar com mais força, os polícias estão no patamar de baixo quando oiço uma voz de dentro de casa perguntar quem é. Eu respondo:
-É a polícia! Abra a porta.
-A polícia? Mas que raio... – o velho não terminou a frase. Já estava com o cano da minha arma entre os dentes mal abriu a porta.
-Para dentro, vá. – E a verdadeira polícia chega ao piso no preciso instante em que fecho a porta atrás de mim. Apontei a arma ao velho e fiz sinal para se manter calado.
-Caludinha - murmurei baixinho – você vive sozinho? - Ele anuiu com a cabeça – Pouco barulho senão temos o caldo entornado.
Fiquei com a cabeça encostada à porta para ver se percebia alguma coisa do que se passava. Contei uma meia dúzia de agentes. Mas mal descobrissem o cadáver de Catarina, seria um ninho de polícias e agentes da Judiciária. Ouvi um dos bófias dar instruções a um outro. Ouvi claramente a palavra “vizinhos”. Iriam concerteza falar com todos os inquilinos, incluindo este.
-Oiça, avô. Há duas formas de fazer isto. A bem ou a mal. Como é que vai ser? – O velho fitou-me nervoso. Nesse instante, batem com estrondo à porta.
-Polícia! Está alguém em casa? Abra a porta! - batem violentamente na porta, não será chuva nem será gente - Polícia! - voltaram a gritar do lado de fora - Abra a porta!

terça-feira, setembro 05, 2006

Capítulo V

Não é de qualquer estabelecimento de diversão nocturna que tratamos neste post, mas sim da quinta parte da mais apaixonante saga da história da literatura que não ficará na sombra de Guerra e Paz, apesar do muito volume desta última. Reconheça-se o esforço de dois escribas que são tão ageis na pena que até dá dó pensar em quem lhes faça frente.


Era difícil avaliar seriamente o ridículo da situação que observava, que pelo menos era consensual com a forma ridícula como o Alfredo se apresentava e com o método ridículo que tínhamos usado para chegar à varanda, porque se há coisa que detesto é ser atirado seja para onde fôr, com a devida excepção constituída por uma piscina olímpica, pois ainda não tinha desistido completamente do sonho da natação.
No entanto, entre a pergunta do bófia, sim porque chapelitos daqueles já eu tinha visto em muito sítios e reconhecia à légua, a dor latente causada pela pisadela do anormal do Mitra e o vislumbre de uma mulher que, apesar de um ar já bastante rodado, conservava um certo je ne sais quois, ainda tive tempo para uma interessante dissertação mental: é curioso pensar como eu compreendia perfeitamente o Alfredo, tal como aqueles filmes em que os tipos são russos mas falam num inglês perfeito, para que toda a gente perceba, mas o tipo confundia o meu miar de fome com o miar de vontade de ir dar uma mijinha e olhem que a coisa era bastante evidente. As minhas cogitações, sim porque um gato também cogita, foram interrompidas por um insistente tremelicar no lado direito dos bigodes, que me indicava que já começava a ser hora de se calhar tentar sacar mais um pouco de leite em pó ao Mitra.
Enquanto pensava, em como iria fazê-lo, o teatrinho à minha frente ia-se desenrolando e eu tinha lugar na primeira fila, sem que a minha participação fosse essencial, assim estilo Capacete Azul da ONU, o que não impedia que levasse um balázio na tromba se a coisa chegasse a isso. Por isso, nada melhor que ir ronronar para perto das pernas da Miss Cacém 1987 e esperar para ver no que dava.
O jogo de cintura do Mitra, para além das suas qualidades no panorama do furto ligeiro português, era sem dúvida um dos seus pontos fortes e no combate verbal e nas tangas poucos lhe faziam frente.
- Não sei bem, o que pretende insinhorar (o seu português, no entanto, não era dos mais cuidados) senhor agente, mas se há um cliente aqui é a Dona Catarina – o seu esbugalhar de olhos, que se assemelhava ao de alguém acabadinho de se submeter a um toque rectal, era um claro sinal para ela se calar.
- Que queres dizer com isso, ranhoso? – lançou o bófia enquanto, tão discreto como um mormon na Cova da Moutra, coçava ostensivamente a tomatada.
- Por favor, mantanhemos isto no campo civilizacional senhor agente. O que eu queria dizer é que a Dona Catarina é cliente do nosso serviço de segurança nocturna e limpeza de janelas. É um serviço protólito que estamos a lançar no bairro e a Dona Catarina, enquanto uma das primeiras adorentes, tem direito a uma demonstração gratuita – mesmo em cuecas, o Mitra marcava pontos pela sua agilidade.
- A esta hora? E com um gato? – O bófia, se calhar ainda afectado pela falta de sangue no cérebro causada pela tesão de uma trancada em perspectiva abruptamente interrompida, estava algo titubeante, na dúvida entre o irreal da situação e o discurso profissional de um indivíduo em cuecas numa varanda, às tantas da madrugada.
- Compreendo que seja uma situação algo peculiária. Como lhe disse, é um serviço-protólito esssencialmente nocturno e não podemos arriscar-nos a lançá-lo de dia, sem primeiro limar arestas, porque nos arriscamos a ser copiados pela concorrência. Quanto ao gato, o senhor pode não saber, mas nada deixa uma vidraça mais reluziante que o pelo de um gato, isto sem magoar o bichano, mas aproveitando a sua disposição natural para se roçar em coisas, não é Joaquim? – a gotinha de suor na testa do Alfredo, apesar da calma do seu discurso mostrava que o gajo não estava 100% seguro.
Assim, apesar de a minha vontade de me roçar em vidro ser tanta como a de qualquer político dizer a verdade, lá me afastei das perninhas quentes da dita Catarina e me fui encostar à vidraça, andando de um lado para o outro. Isto tudo a pensar no leitinho em pó do Mitra como recompensa.
Embora parecesse pouco convencido o bófia, meio aparvalhado pelo insólito (não digo completamente porque sei como é difícil raciocinar em época de cio), não levantou grande espiga e mostrava-se disposto a tolerar aquilo.
- Não sei se me convences ranhoso, mas tenho uma apreensão de droga a que não posso faltar logo de manhã e não vou perder as poucas horas que tenho a confirmar essa história...- olhou para a febra e pensando um pouco continuou – Bem, já vi que hoje também já não há clima, por isso Catarina vê se amanhã fazer as coisas de maneira a que não tenha de vir cá à noite para aturar um palhaço em cuecas e um gato amestrado, mas sim para festejarmos à antiga.
Dizendo isto, pegou no chapéu, coçou novamente os tomates em jeito de despedida e dando uma palmada no cu de Catarina deu meia volta e saiu. O Mitra mais do que aliviado estava vidrado e eu sei bem porquê: a palavra “apreensão de droga” tinha-lhe ficado retida na mente e eu sei bem que o gajo era de ideias fixas. Ao mesmo tempo Catarina fazia-me festinhas, e que mãos habilidosas e suaves tinha esta tipa, mas de repente levantou-se e fitou o Alfredo com ar de quem lhe ia cortar uma parte muito importante do corpo.
- Ouve lá meu filho da puta, com que direito me entras pela varanda e me fazes uma cena destas às tantas da madrugada? Queres que acabemos todos mortos, incluindo o gato? Não sabes quem acaba de sair, pois não?
- Não sei minha linda – sorriu Alfredo, vestindo-se e segurando-me ao colo, mesmo ao pé do pacote de leitinho em pó – mas tu vais dizer-me...

quinta-feira, agosto 24, 2006

Joaquim - Capítulo IV

Atenção: tal como se encontra identificado em título, esta história já vai no seu quarto capítulo e é uma história partilhada entre dois dos maiores escritores da linha que liga Sacavém a Algés. O capítulo anterior encontra-se mais abaixo.


Em menos de três tempos, o que se deduz portanto em dois, consegui escapar ileso apesar do peso do arsenal que carregava nos bolsos. Num dos últimos saltos entre telhados, o meu pé resvalou e soltou-se uma telha. Escancarou-se no chão, poderia ter desferido um golpe fatal em algum traseunte, daqueles que decide passear-se às tantas da madrugada com um cão, talvez. Nem por sombras, mal eu pensara no tal bicho e outro bicho, Joaquim, miara em sinal de desagrado.
Chegando a chão firme, as minhas pernas tremiam como varas verdes. Antigamente, andar por telhados davam-me a sensação de ser um qualquer super-heroi, sem capa; mas a idade não perdoa. As rótulas não são as mesmas, os joelhos já não se dão bem com os meniscos e a merda do colesterol anda a fazer amizade com o ácido úrico. Por outras palavras estou a ficar velho para tanto alpinismo urbano. Estou a sentir o peso dos anos, o peso das pernas, o peso da barriga, um peso na consciência e um peso nos ombros. Junte-se a tudo isto o peso do que trazia nos bolsos e vê-se logo que não ando bem.
Tenho que encontrar guarida mas não pode ser em casa desconhecida. Preciso de um tecto familiar, estou necessitado de carinho, de atenção de o calor de um aquecedor, de uma manta ou de uma colcha. Bolas, o que é que eu estou para aqui a dizer, estou a precisar dum rabo gelado de uma gaja.
A noite avançava enquanto a minha mente deambulava e procurava uma solução para o meu abrigo. “Pois, vai ter de ser. Não tenho alternativa, ainda por cima não estou muito longe”. Falei em voz alta. De vez em quando faz bem para não me esquecer de que existem cordas vocais, porque estou cansado de falar comigo mesmo, sempre para dentro. A minha mãe sempre me dizia que “quando falas para dentro só falas sozinho e ninguém te ouve”. Uma mulher inteligente embora abussasse das redundâncias, o que fazia dela uma mulher sempre certeira nos comentários, nunca se enganava naquilo que tinha para dizer porque dizia sempre o mesmo.
Quem procurava eu? Catarina, a única mulher que realmente amara e que sentia por mim algo que nunca compreendi. Não sei se era mesmo ódio. Amor não era porque tirando as sessões de sexo conveniente e que ambos os corpos pediam, não havia mais nada entre nós. A não ser uma ligação factual, algo que ela descrevia como “se calhar é o destino.” Nunca percebi essa coisa do destino. “O destino é algo que não controlamos mas que define todos os nossos passos”, dizia ela. “Quem define os meus passos sou eu, não essa coisa do destino. Estás a ver alguns cordéis pendurados nos meus braços. Olha bem, achas que sou alguma marioneta?”. Ela encolhia os ombros e sorria como se eu não entendesse o que ela dizia. O que era verdade. Mas talvez tivesse chegado a hora do destino bater-lhe à porta.
Enquanto caminhava pensava na melhor forma da surpreender. Como se bater à porta de alguém às 3:30 da madrugada, não fosse surpresa suficiente. Mas depois de quatro ou cinco anos sem dar notícias, tinha de preparar algo mais elaborado.
Catarina lutara toda a noite contra uma terrível insónia. E que lhe ganhara aos pontos. A luta tinha sido tão desigual que Catarina só encontrou uma forma de descansar. Entra na casa de banho e limita-se a preparar um banho de imersão, convencida de que a noite poderia aparecer-lhe mais cedo nos lençóis. Despe-se e vemos as linhas do seu corpo, algo que deixaria uma jovem de vinte e poucos anos mergulhada em inveja e vergonha. Quarenta e quatro anos não deixaram marcas na silhueta de Catarina; é incrível como se consegue ter um corpo tão escultural sem correr em tapetes nem recorrer a cremes.
Catarina olha para o seu corpo. De uma maneira diferente, claro. Ela percorre todos poros da pele com grande detalhe à procura de defeitos, de um pêlo encravdo, de um sinal problemático, de algo com que se possa afligir porque ser mulher é assim. Não encontra nada de errado e decide mesmo assim marcar uma consulta no oftalmologista porque o problema pode estar na visão. Antes de mergulhar, coloca o mais genial e apurado termómetro criado pela Humanidade, a mão. E quando se prepara para levantar a perna e arrastar o resto do corpo para dentro da banheira, ouve-se a campainha tocar. A estas horas?, ouvimos o seu pensamento. Por amor de Deus, são quase 4 da manhã, devem ser alguns gaiatos a brincarem com as campainhas tal como eu fizera na idade deles. Mas o som da campainha ouviu-se mais uma vez e com maior intensidade. Catarina veste um roupão e decide abrir a porta. Do outro lado estou eu, a suar em bica pela corrida que fiz ao subir oito lanços de escadas.
-Quando é que mudas para uma casa com elevador? – perguntava-lhe eu, respirando golfadas de ar inspiradas com grande violência.
-Alfredo? – fechou melhor o roupão apertando-o com um nó – Alfredo?
-Não gastes tanto o meu nome. Não me vais convidar para entrar?
-Ehhh.....desculpa, entra, entra. – Fecha-se a porta atrás de mim – Mas o que é que fazes acordado a estas horas? E o que fazes aqui? Espera, não me digas que estás metido outra vez em problemas?
-Não, nada disso. – E quando me ponho mais à vontade, tiro o Joaquim do bolso do casaco – desculpa, mas ele pode andar pelo chão? Prometo que não estraga nada.
-Alfredo, sabes o que sinto com gatos pretos.
-Ah, é verdade, tinha-me esquecido como és surpesticiosa, acreditas que tudo te dá azar....
-Não, não digas essa palavra. – E de imediato lançou-se até a uma estante de livros, em madeira onde bateu três vezes, com uma cadência e ritmo que demostravam bastante praticidade – Diz antes falta de sorte!
-Não te preocupes. Podes estar descansada. Estava de passagem aqui na zona.
-Às quatro da manhã?
-Sim, para te ver nunca há horas certas. Como antigamente.
-Isso já foi há muito tempo. Tiveste preso entretanto?
-Preso, não que disparate, porque é que dizes isso?
-Porque não soube nada de ti durante 4 anos.
-Ah, pois.... não,....estive no Luxemburgo, a trabalhar.
-A sério? E onde?
-Onde? – Bolas, estou a sentir-me entalado – Numa cidade grande do Luxemburgo.
-Na cidade do Luxemburgo?
-Sim, essa.
-E que lingua falam no Luxemburgo?
-Bom, então falam numa lingua estrangeira.
-Mas não sabes?
-Então, se eu não sei falar nenhuma língua como queres que saiba que língua eles falam lá? Bolas, mas agora és minha mulher? Estive por lá, depois fui para França e cheguei a semana passada.
-E estás a viver onde?
-Ainda não tenho nada. Já estive a ver aí umas casas mas o Joaquim não gostou de nenhuma delas.
-Ah. Queres alguma coisa para comer? Posso-te fazer qualquer coisa. Mas tenho aqui camarões tigre que posso grelhar.
-Tsss, até comia alguma coisinha mas sabes o que me apetecia antes disso?- E aproximei-me dela lentamente, as minhas mãos tentaram acercar-se da sua cintura. Ela deu dois passos para trás e perguntou timidamente:
-O quê?
-Um banho- respondia eu.
-Olha, nem de propósito. Estava agora mesmo para ir tomar um. E estava a pensar que podías juntar-te a mim e depois quem sabe, fazíamos amor até de madrugada. Penetravas-me durante horas e encavas o teu grosso falo dentro de mim para que eu pudesse explodir de prazer e depois satisfazer-te como nunca ninguém fez.
Pronto, está tudo estragado. Fui interrompido por uma unhada afiada de Joaquim. Continuava dentro do meu bolso, de onde nunca tinha saído e demonstrava assim o seu desconforto aos sobressaltos dos meus passos rápidos. “Tu só pensas em merda, Alfredo”, acalma-te aí. O caralho leva-te para terrenos pantanosos. Perdes-te no meio da imaginação e estás agora perdido no meio das ruas. Precisas de te acalmar. Descansa.
Finalmente os teus olhos descobrem o prédio. Numa zona pacata, iluminada deficientemente e aparentemente sou o único ser vivo de duas patas que vejo. Olhei para a janela dela e vejo uma luz acesa. A estas horas?, pensei eu. Olhei em redor e percebi que tinha hipóteses de fazer fazer uma entrada espectacular evitando a porta da frente. Joaquim rosnou baixinho, já me lê os pensamentos este cabrão. Sabe perfeitamente que vamos fazer uma entrada à mitra, não pela porta da frente mas pela janela da frente.
Subi para um tejadilho de um carro, pulei para cima de uma carrinha de transportes que estava milagrosamente estacionada junto a uma árvore. Segurei-me a um tronco e a hérnia discal queixou-se mal comecei com o número do macaquinho. Com algum esforço consegui chegar a uma varanda. O apartamento de Catarina ficava a apenas dois pisos acima. Apoiando-me nos varandis, subi até a um dos benditos aparelhos de ar condicionado fixado no exterior de uma janela conseguindo facilmente chegar à varanda do andar de cima. Mas agora a tarefa apresentava-se mais dificil. Após um rápido mas cuidado estudo vi, não uma janela de oprtunidade, mas sim uma possibilidade. Voltei-me a apoiar nos varadins, e à falta de electrodomésticos, percebi que o resto do percurso teria de ser feito à moda antiga, trepando pelo tubo de esgoto dos algerozes. Mas não demorou muito tempo para descobrir que o tubo não aguentaria tanta alavancagem. Só havia uma hipótese, a última, a derradeira, aquela que salva barcos do afundamento e aviões de quedas. Para largar lastro tirei Joaquim do bolso: “Não te preocupes que tens 9 vidas, tens até de sobra. Se caires, aterra sempre de pé”. Ele ainda miou, não até ao fim porque a essa hora, ainda o miar estava a meio e Joaquim voava. Confiei na minha capacidade de pontaria, cheguei-me para trás o máximo que conseguia e lancei o gato até à varanda de cima.
Esta foi o primeiro grande teste para ele. Manteve intocável o registo das 9 vidas ao conseguir aterrar suavemente no alvo pretendido. Ouvi um miar ligeiro, sinal de que estava vivo e que a costa estava desimpedida.
Tirei o casaco, voltei a conferir que a arma e a droga mantinham-se nos bolsos e utilizei a mesma técnica para lançar o casaco. Continuei a despir-me até ficar só em cuecas. Atei as peças de roupa umas ás outras fazendo um enorme bola, fácil de ser atirada e com peso suficiente para que respondesse eficazmente à trajectória desejada e a uma força determinada.
-Psttt. Joaquim, tudo em ordem?
Ouvi novamente o gato miar. Era sinal de que a encomenda tinha chegado ao destino e lancei-me de novo ao tubo dos esgotos dos algerozes. Sem peso nenhum no corpo a não ser da gordura acumulada, consegui subir até à varanda. Já sabemos que as luzes estão acessas. Como vim a descobrir mais tarde é apenas a luz de um candeeiro de parede que parece ter ficado ligada propositadamente durante a noite. Ninguém está na sala mas julgo ouvir vozes bem ao fundo. Porventura a televisão está ligada já que ouço distintamente uma voz masculina. A porta da varanda está aberta, Esta Catarina não se enxerga, lá porque vive num quarto andar acha que ninguém vai assaltar-lhe a casa, pensava eu no instante em que sou assaltado por algo que vira naquele instante. Assaltado é mesmo a palavra indicada. Em cima de uma mesa, cuidadosamente depositado, encontrava-se o chapéu de um bófia. Foda-se, dei um pulo para trás e inadvertidamente pisei o Joaquim que guinchou como se fosse um gato de 2 anos. Estava eu a pensar no que fazer à minha vida quando dois vultos surgem mesmo ao meu lado. Um deles reconheci de imediato. Catarina continuava linda como sempre mas o que faz aqui um caralho de um bófia?
-Catarina – falou o chuleco – importavas de me explicar quem é o senhor que se apresenta praticamente nu na tua varanda? Algum dos teus clientes que se esqueceu da roupa?

sexta-feira, agosto 18, 2006

Joaquim - Capítulo III

Aqui se continua uma história, mas um capítulo novo começa, tanto literalmente, como do ponto de vista da narrativa, como do ponto de vista do narrador. Um regabofe completo portanto

Vê-lo a trepar por janelas e a saltar de telhados era muito engraçado. Via-se que o Mitra, nome que eu lhe arranjei por tudo o que já passámos, era parente afastado aqui do je. Curiosamente, nunca pensei que a minha vida, ou melhor as minhas vidas, me levassem por estes caminhos. Mas quis o destino que me juntasse a um Mitra.
Mal nasci pensei que tinha futuro na natação, pelo menos pelo facto de ter sido o único de cinco irmãos que conseguiu sair do saco em que nos atiraram ao rio, pouco tempo depois de nascermos.
Deambulei uns dias pelas ruas, aprendendo algumas manhas dos vadios, mas cedo percebi que o meu tamanho não acompanhava a minha inteligência, já que não tinha cabedal para ombrear com outros matulões. Foi então que descobri que o meu ar abandonado de pequeno sedutor poderia safar-me de problemas na minha fase de crescimento. Arranjei maneira de seduzir uma cota, que vivia num barracão para os lados em que eu circulava na altura, e que gostava deles tenrinhos. Não sei se foi do meu sex-appeal, mas a coisa resultou e durante uns tempos foi ela que cuidou de mim, deixando-me livre para o ócio.
Vivíamos num barracão, onde o meu passatempo habitual era assustar os vagabundos, os drogaminas, os casais com o cio que se infiltravam lá dentro para se tentarem desenrascar. Aquilo era engraçado e a vidinha era boa, mas ao fim de alguns tempos as coisas complicaram-se. A gaja ficou mais chata, se eu saía, eram 10 mil perguntas, inúmeras discussões, que acabavam quase sempre com ela a chorar, eu a tentar passar-lhe a mão pelo pêlo e a ouvir, invariavelmente “Tira-me as patas de cima seu vadio”.
Assim, a noite em que conheci o Mitra, foi uma lufada de ar fresco e deu um novo rumo ao meu futuro. Estava a dormitar no barracão quando ouvi uma barulheira. Era um cromo, que pensei ser coxo, mas depois percebi que tinha levado um balázio. O tipo vinha com pressa e escondeu-se o melhor que podia, mas a mim não me enganava, pois estava habituado a este tipo de situações. Ainda estava a pensar no que lhe ia fazer quando entram dois polícias no armazém, que deviam andar atrás dele. Conheci-os logo, eram o Joaquim e o Samouco, que para além de fazerem cumprir a lei também se faziam um ao outro, muitas das vezes nos meus domínios, coisa que eu não apreciava já que não sou fã de bichanices, mas que sempre entretiam nas noites em que havia pouco que fazer.
Achei piada ao Mitra e resolvi ajudá-lo. Solta-se um bidonzinho aqui, ouve-se um cagaçal acolá e lá fica a bófia aos papeis, como é costume. O Mitra deu por mim e a gaja também, já que veio logo para o pé de mim. Fiz o meu ar de coitadinho e o Mitra não resistiu e levou-me com ele, deixando ainda tempo para mandar um manguito à gaja enquanto saímos dali.
As semanas seguintes foram interessantes, o Mitra levava uma vida que me agradava, muitos cenários diferentes, emoção e acção q.b., dá-me ideia que o homem trabalhava em part-time numa imobiliária, tantas eram as casas que visitávamos, sempre com ofertas de souvenirs.
O gajo não me tratava mal, antes pelo contrário e não tinha assim muitos fetiches estranhos, o que me safava de problemas maiores, porque ao início ainda pensei que podia daqueles brincalhões e ainda acabava eu com uma bomba de Carnaval enfiada pelo rabo acima, algo que não faz o meu género.
Uma outra mudança na minha vida, deu-se quando o Mitra passou a transportar uma espécie de leite em pó nos bolsos, em saquinhos individuais. Como tinha fácil acesso e sou apreciador de leite, rapidamente lhe conseguir sacar uns pozitos para ir matando o tempo. Caramba, aquilo devia ter vitaminas, porque me sentia sempre melhor mal lambia um niquinho daquilo, se bem que às vezes os balanços das viagens me faziam mais confusão, mesmo quando não saía do lugar. Além disso, sentia-me cada vez mais entusiasmado por este leite em pó do Mitra, sendo já raro o dia em que não sacava uns gramitas sem ele dar por isso.
E a nossa relação corria bem, ou pelo menos eu achava que sim, já que o Mitra normalmente só falava directamente comigo, quando lhe davam aqueles ataques que dão às pessoas que convivem com tipos como eu e fazem vozes muito parvas, como se tivéssemos algum atraso mental. O resto do tempo era cowboyada e dissertações do Mitra, das quais eu percebia muito pouco, mas nas quais que me fingia muito interessado, para ele não ficar triste.